SP: Estudantes da Pós-Graduação em Educação da Unifesp produzem carta contra Ead

Estudantes do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unifesp, campus Guarulhos, produzem carta expressando posicionamento contrário a continuidade das atividades acadêmicas via Ead.

A carta denuncia o processo antidemocrático, sem debate com o corpo discente, a qual tem sido levado a discussão sobre a continuidade das atividades à distância.

Reproduzimos, a seguir, trecho da carta onde os estudantes pontuam os elementos que sustentam seus questionamentos acerca das atividades remotas:

1.Alguns docentes do programa mantiveram as aulas e encontros de grupos de pesquisa remotamente, por meio de videoconferência ou por meio de outras ferramentas. Essa atitude por parte do corpo docente nos sugere a pensar que, pelo fato de sermos estudantes de pós graduação, temos condições materiais que possibilitam a realização de tal atividade de maneira plena. Entretanto, não houve uma consulta oficial a todos os estudantes de pós-graduação, sendo isso feito de maneira individual e articulada pelos próprios docentes. Ora, entendemos isso como um grande problema, já que alguns de nossos colegas têm computadores antigos e conexão com a internet de maneira muito precária. Além deste problema estrutural, muitos de nós somos professores da educação básica e que, devido a situação pandêmica, tivemos que aceitar de um dia para outro um modelo de ensino baseado na “lógica do EAD”, sendo esta uma das maiores preocupações nos últimos decênios na área da Educação, já que sabemos os impactos e as consequências que esse modelo de ensino propaga em sua instauração e efetivação.

2.Além das condições estruturais de ensino de maneira remota, salientamos aqui os últimos eventos políticos ocorridos em ataque à educação pública. A educação entendida como direito de todos e dever do Estado e da família é uma das mais importantes bases para o desenvolvimento do Estado Democrático no intuito de alcançar uma sociedade mais justa e igualitária em condições. O que temos é o Governo Federal, juntamente com o MEC, utilizando-se da situação de pandemia para justificar a inclusão do EAD como maneira complementar ao processo de aprendizagem. Esta realidade circunscreve as escolas de ensino fundamental e médio e atingem as instituições de ensino superior e que, segundo nosso posicionamento, além de ser uma medida que vai na contramão à efetivação de uma educação de qualidade, que promove a liberdade, a cidadania e o exercício pleno da democracia, se torna um processo excludente e que fere a realização integral das faculdades de nossos alunos. Diante desse quadro, entendemos que, por sermos educadores e estarmos em um programa de Pós-Graduação em Educação, não podemos corroborar com esse modelo de ensino que é contrário àquilo que lutamos, dado que nossa preocupação é por uma formação humana que possibilite a emancipação.

3.Estamos vivenciando um momento na história mundial inimaginável por nós. A cada dia se faz maior o número de infectados e de mortos pela Covid-19. Já ultrapassamos a marca de 53 mil mortos e 1,2 milhões de casos confirmados, sendo que este número tende a crescer em proporções geométricas. Destacamos que dentre estes números, negros e pobres são os mais acometidos. O Núcleo de Operações em Inteligência e Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 02 de junho, afirma 55% da taxa de letalidade entre os negros internados. Salientamos um dado relevante quanto à falta de testes para a Covid-19 e a realidade de muitos trabalhadores que sequer possuem o direito de se manter isolados socialmente. Muitos de nós já perdemos amigos e familiares e, aqueles que ainda não os perderam, podem a qualquer momento serem afetados. E este espectro que ronda diariamente nossos lares nos coloca numa situação de alto estresse e de medo quanto ao futuro incerto de nossas vidas, de nosso país e do mundo. Somos seres humanos e, indubitavelmente, não é possível não nos sensibilizarmos frente ao estado de caos que a Covid-19 trouxe para nossas vidas: a) redução de salários; b) extinção de benefícios aos empregados; c) ampliação da informalidade; d) naturalização do modelo home office (que beneficia o empregador, uma vez que não há custos de água, energia, deslocamento e alimentação de seus empregados, ocasionando obtenção de lucro e consequente aumento das despesas do trabalhador); e) aumento do número de desempregados; f) aumento do números de pessoas em situação de rua e dentre outras mazelas sociais. Frente a esta situação, como podemos achar que há uma normalidade em nossas vidas e que podemos dar continuidade à nossa rotina? Esquecendo-se do que está acontecendo no mundo no único intuito de cumprir prazos, atendendo a disposição dos ideias de uma sociedade neoliberal e capitalista e que vê na paralisação da economia um de seus maiores inimigos? Ora, percebemos que esse posicionamento é uma forma de legitimar os ideais dessa sociedade neoliberal, que quer, a qualquer custo, manter o  seu lucro, e que, enquanto educadores e humanos, devemos neste momento priorizar a VIDA!

4.Consideramos ainda que, por termos na Educação o foco de nossas pesquisas acadêmicas, se torna praticamente inviável a realização de algumas etapas de diversas pesquisas do PPGE, que consiste em coleta de dados em escolas, em órgãos de administração de sistemas escolares ou com profissionais da educação. Embora não seja parte de todas as pesquisas a ida a campo ou a coleta de dados por meio de profissionais da educação, é pertinente pontuar que, diante deste cenário, o andamento de diversas pesquisas ficará comprometido, sendo necessário, portanto, considerar a prorrogação extraordinária dos prazos para que nenhuma das pesquisas seja prejudicada.

5.Pontuamos um elemento extremamente importante e que compreende a realidade das mulheres em nossa sociedade. Sabemos que durante séculos, a sociedade patriarcal estabelecida nos modelos instaurados socialmente ao longo da história da humanidade, delega às mulheres certas funções e, muito embora haja grandes manifestações a favor das condições de igualdade entre homens e mulheres no que diz respeito às funções familiares, tal fato não é verdadeiro na realidade de nossas casas, uma vez que muitas de nós trabalhamos “fora” de casa e “dentro” de casa, constituindo uma jornada dupla. Algo que não afeta o sexo entendido como masculino. Ocorre que, nessa situação pandêmica, tais questões se revelam de maneira mais abrupta, pois além de cumprirmos o papel de trabalhadoras, cumprimos o papel de donas de casa somado ao papel de mães, tendo que conciliar as tarefas domésticas, os cuidados com os filhos e as atividades acadêmicas EM CASA, demandando uma jornada muito maior do que aquela antes da pandemia, e no caso das estudantes de pós-graduação há um impacto muito grande na produtividade acadêmica.

Baixe aqui e leia a carta completa.

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