[SP] MetaRed, Universia e Santander: a mercantilização do ensino na Unicamp

Reproduzimos Nota do Centro Acadêmico de Estudos de Química – Unicamp (CAEQ)

Na esteira do Ensino Remoto Emergencial (ERE), a incorporação de ferramentas digitais de apoio ao ensino está acelerada. Conforme apontado pelo CAEQ no Manifesto: “A Tragédia Anunciada do EaD” (bit.ly/manifesto-CAEQ), desde a implementação do ERE, a linha entre o uso de tais ferramentas digitais e a implementação do modelo de Ensino à Distância na Unicamp é tênue. No dia 01 de Outubro de 2020, foi publicada pelo site da Unicamp uma notícia que chamou atenção: “Inédita no Brasil, pesquisa vai avaliar competências digitais de professores”[1]. A reportagem conta que:

Entre os dias 1º de outubro e 2 de novembro, a Unicamp participa de uma pesquisa que vai avaliar as competências digitais dos professores de 67 instituições de Ensino Superior do país. O levantamento será realizado por meio de uma ferramenta digital composta por 22 questões, nas quais os docentes podem refletir sobre seus conhecimentos sobre o uso de ferramentas e aplicação nas atividades acadêmicas. Os dados da pesquisa vão servir para que as universidades promovam a formação digital de seus docentes e possam planejar a incorporação de mais recursos digitais em seus currículos.

Apesar de à primeira vista não parecer estranho avaliar as competências digitais dos docentes durante um cenário de Ensino Remoto Emergencial, é interessante ressaltar que esta pesquisa foi elaborada antes da pandemia do coronavírus[1]. Qual seria o verdadeiro objetivo por trás deste levantamento? A situação se agrava ainda mais ao analisar os responsáveis pela pesquisa e os interesses destes por trás da perigosa e falaciosa “incorporação de recursos digitais nas universidades”.

A rede de Universidades por trás da pesquisa chama-se MetaRed, uma rede internacional composta por nove países ibero-americanos: Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, México, Equador, Portugal e Espanha. Segundo a reportagem da Unicamp, “o grupo tem o objetivo de promover debates e trabalhos colaborativos sobre o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) nas universidades.”

A MetaRed, por sua vez, é representada no Brasil pela MetaRed Brasil. Acessando em seu site[2], “A MetaRed nasceu por proposta de algumas universidades brasileiras e com o apoio da Universia” e tem como missões, entre outras:

– Ajudar as Universidades a melhorar a sua competitividade e eficácia, facilitando ferramentas próprias do ambiente universitário que auxiliem as universidades a analisar e implementar boas práticas de governo das TI.

– Promover, realizar e publicar estudos.

– Colaborar com as Administrações Públicas Brasileiras e outros organismos e instituições em temas de interesse MetaRed, assim como com associações, empresas e foros relacionados com as TIC.

Fomentar a colaboração a nível internacional com Universidades e redes similares, especialmente ibero-americanas e pertencentes à rede Universia.

Nota-se que a MetaRed tem uma meta ambiciosa de promover, realizar, publicar estudos e também incitar a instalação das TICs nas Universidades brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. Chama atenção a menção à rede Universia, que não tinha sido explicitada em nenhum momento na reportagem da Unicamp. O que vem a ser a Universia? Já no rodapé do site da MetaRed Brasil encontra-se menção ao apoio do Banco Santander. Entrando no site da Universia[3], encontramos incentivos a bolsas, estágios, preparação para entrar na Universidade e afins. Entretanto, ao acessar a página do Santander referente à Universia[4], encontram-se algumas informações curiosas. A página afirma que a Universia foi fundada em 2000, tendo financiamento direto do Santander por todos seus anos de existência. Citando a própria página:

“We want to be a sustainable platform for non-financial services, to be useful, and to become the bank of choice for university students” Javier Roglá, global head of Santander Universities and CEO of Universia. [Tradução: “Nós queremos ser uma plataforma sustentável para serviços que não são financeiros, ser úteis, e nos tornarmos o banco de escolha para estudantes universitários”]

Fica claro que o interesse do Santander e de sua aproximação na impulsão da Universia e da MetaRed, explicado nas palavras de Javier Roglá, chefe global do Santander Universidades e CEO da Universia, é puramente econômico, já que tem como fim buscar mais clientes para o banco, predando especialmente universitários que acabam de iniciar sua vida financeira.

No site da própria Universia[5], é possível comprovar que a Unicamp, assim como outras 118 Universidades públicas brasileiras, são membros da Universia, ou seja, estão indiretamente ligadas ao Santander. Qual seria o interesse específico de um banco em promover soluções digitais às Universidades, além de angariar clientes?

Em 2016, os estudantes ingressantes daquele ano receberam suas carteirinhas de RA com uma bandeira do Banco Santander, tendo seus dados fornecidos ao banco para abertura prévia de contas. Além de ser um claro ataque à autonomia universitária (e do próprio estudante) revela a relação promíscua que existe entre o público e o capital privado, a universidade como uma forma de servir aos interesses do capital.

Voltando à MetaRed Brasil, é possível acessar no site quais são os membros executivos do órgão[6]. O presidente, o secretário-executivo e três dos quatro vogais são representantes de grandes conglomerados educacionais; o quarto vogal é o chefe do GGTE/Unicamp (Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais da Unicamp). O presidente, por exemplo, é ninguém menos que Hermes Ferreira Figueiredo, presidente do conglomerado educacional Cruzeiro do Sul e também presidente da SEMESP (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), que representa as Entidades Mantenedoras de IES privadas no Estado de São Paulo.

O grupo Cruzeiro do Sul esteve recentemente envolvido em demissões em massa de professores para diminuição de gastos[7]. Simultaneamente, a SEMESP, que também é chefiada por Hermes Figueiredo, advoca pela “Universidade do Futuro”, como na reportagem “Tecnologia vira Protagonista no Ensino Superior” [8], a qual se pode citar:

A rápida transição do ensino presencial para o remoto mostrou que é possível as instituições de ensino promoverem a transformação digital da educação. (…) A diretora de Impacto Social da Cogna [outro conglomerado educacional], Camilla Veiga, destacou que (…) “Outro desafio tem sido trazer os professores para dentro do jogo, mostrando os benefícios da tecnologia e transformando-os em facilitadores. (…)” Stavros Xanthopoylos, CEO da Kitutor e conselheiro da ABED (Associação Brasileira do Ensino à Distância), destacou que, infelizmente, a educação ainda está na fase de verticalização em relação ao uso das tecnologias, com um foco centralizado que pouco aproveita o contexto de flexibilidade que elas permitem. Segundo Xanthopoylos, a pandemia tem se mostrado o momento ideal para romper com paradigmas, entre eles a separação do ensino por modalidades. “Esse é o momento de forçar essa mudança. Não faz mais sentido separar ensino presencial e EaD. Inclusive, mudamos o sentido do termo EaD de educação a distância para educação por aproximação digital. Esse é um movimento sem volta e precisamos pensar em modelos pedagógicos híbridos”, defendeu.

É nítido no texto a defesa da Educação à Distância como algo a revolucionar a Universidade do futuro, deixando claro que o interesse na implementação das TICs está diretamente relacionado a um plano de implementação do Ensino à Distância permanente; além disso, a reportagem também fala de inteligências artificiais, o que remete à correção de provas automatizada promovida pelo Grupo Laureate em 2020[9]. Essa questão também é abordada em uma reportagem no site da Universia intitulada “5 tendências das universidades do futuro”[10], que coloca “robôs treinados para expressar emoções” como tendo maior capacidade empática e atenciosa que “a maioria dos professores”. Isso não apenas desmerece e desvaloriza explicitamente o trabalho dos docentes, como também nos mostra o verdadeiro objetivo do Ensino à Distância: o fim do debate de ideias que ocorre no espaço de sala de aula e outros ambientes da universidade, pois “professores despolitizados, inofensivos politicamente, incapazes de compreender os fenômenos sociais além da sua superficialidade, não podem prover um conteúdo crítico nas escolas.” (Manifesto do CAEQ, 2020)[11].

Em outras palavras, o presidente da SEMESP, responsável pela reportagem que propõe a transformação de professores em meros facilitadores, promovendo a precarização do ensino e da profissão como um todo, é também presidente da MetaRed Brasil, que está conduzindo o estudo na Unicamp; MetaRed esta que é capitaneada pelo Banco Santander, representante do capital financeiro, via Universia.

O capitalismo, na atual fase que se encontra, fase de expansão do capital financeiro (capital bancário que se funde com capital industrial) esgota-se de possibilidades produtivas. Vemos uma estagnação da economia e o capital financeiro se arvorando e tapando todos os poros da sociedade em geral, e da universidade em particular. Os poucos resquícios de democracia, de conquistas de nosso povo são atacados da forma mais dura pelo capitalismo. Projetos como os da MetaRed nada mais são do que, por um lado, controle ideológico do conteúdo ensinado e pesquisado (isso quando há pesquisa) nas universidades e, por outro, utilização de instituições públicas em prol de interesses privados, principalmente da forma predominante do capital, o capital financeiro.

A força do capital tenta submeter tudo a sua lógica perversa, transformando tudo em mercadoria, ao ponto de que a universidade se transforma num mercado de diplomas, os estudantes em consumidores de ensino barato e precarizado, e os interesses públicos são subordinados aos interesses privados, na criação de acordos e convênios com instituições de tecnologia e telefonia privadas, transferência de recursos públicos ao setor privado e sua consequente privatização.

Estamos abrindo nossa Universidade e mais 66 instituições públicas de ensino superior ao capital de bancos para pesquisas enviesadas, como forma de impulsionar a instalação da Educação à Distância para abaixar investimentos às custas da qualidade do ensino. A aproximação de grandes conglomerados educacionais privados, interessados em predar o mercado de ensino superior no Brasil, também acende o alerta de que o ERE está sendo uma porta de entrada para a implementação da EaD e consequente privatização, direta ou indireta, da Universidade Pública e de sua autonomia.

Referências:

1 – Mateus, Felipe. Inédita no Brasil, pesquisa vai avaliar competências digitais de professores. Unicamp, 01 de out. de 2020. Disponível em: <https://bit.ly/377bLi9>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

2 – O que é a MetaRed? MetaRed Brasil. Disponível em: <https://bit.ly/3704dxw>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

3 – Universia Brasil. Disponível em: <https://bit.ly/3n2vaGs>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

4 – Universia. Banco Santander. Disponível em: <https://bit.ly/3qJ9b9O>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

5 – Lista de universidades membros da Universia. Universia. Disponível em: <https://bit.ly/374H7G5>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

6 – Órgãos de Governo. MetaRed Brasil. Disponível em: <https://bit.ly/3qLf8mk>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

7 – Faculdades São Judas e Cruzeiro do Sul demitem professores em SP; sindicato entra na Justiça contra cortes. G1 Globo, 02 de jul. de 2020. Disponível em: <https://glo.bo/3gA2dzg>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

8 – Tecnologia vira protagonista no ensino superior. SEMESP, 23 de set. de 2020. Disponível em: <https://bit.ly/2IyYGVh>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

9 – Faculdades da Laureate substituem professores por robô sem que alunos saibam. Folha de São Paulo, 02 de mai. de 2020. Disponível em: <https://bit.ly/3f6akkp>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

10 – 5 tendências das universidades do futuro. MetaRed Brasil, 5 de mar. de 2018. Disponível em: <https://bit.ly/2JTJ7Id>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

11 – A Tragédia Anunciada do EaD: Lutar contra o EaD é lutar contra a privatização da Universidade Pública. Centro Acadêmico de Estudos da Química, 13 de jul. de 2020. Disponível em: <bit.ly/manifesto-CAEQ>. Acesso em: 09 de dez. de 2020.

Att,
Gestão Primavera, 2020.

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