[PR] Frente Estudantil Contra a EaD denuncia a retomada do calendário acadêmico na UFPR!

Reproduzimos a seguir nota da Frente Estudantil Contra a Educação à Distância a respeito da retomada impositiva do calendário acadêmico na forma de EaD na UFPR:

Sobre a Nova Minuta da UFPR para o Ensino Remoto e a defesa da Universidade Pública!

Em um ano de pandemia da COVID-19 o cenário político, econômico, social e sanitário no Brasil chegou a um estágio de completa calamidade. Com mais de 6 mil pessoas em filas de espera para ser internadas em UTIs lotadas – após mais de 310 mil mortes – enfrentamos problemas como a escassez de remédios, de profissionais de saúde, de respiradores, entre tantas outras demandas que poderiam ser amenizadas com a atuação contundente das universidades públicas, as maiores responsáveis pela produção de ciência no país.

Frente a esse cenário o único papel que foi imposto aos estudantes foi de meros observadores e comentadores da realidade. A Educação à Distância (EaD) colocou por terra o chamado “tripé” das universidades, a pesquisa ensino e extensão. Hoje o ensino, aligeirado e a distância, não mais serve para aprender, a pesquisa não é vista como um “serviço essencial” e a extensão nunca esteve tão distante das necessidades da população. Na UFPR o processo antidemocrático de imposição da EaD iniciou-se em meados de março de 2020, quando a administração da universidade fechou o Restaurante Universitário (RU) antes mesmo de suspender o calendário. Após a suspensão do calendário aprovou-se o Ensino Remoto Emergencial, sem debate profundo com o corpo discente, que supostamente seria uma forma temporária de EaD. À época o reitor, Ricardo Marcelo, garantiu que seria opcional, que não prejudicaria quem não aderisse e que jamais teria caráter definitivo já que “nosso DNA é presencial”.

Pouco a pouco, essas promessas de ano eleitoral apenas confirmavam o cinismo e a covardia da burocracia universitária. O primeiro período especial foi aprovado com o argumento de que era facultativo para todos os estudantes e professores, já no segundo tornou-se obrigatório para os professores e agora pretendem retomar o calendário acadêmico impondo aos estudantes: EaD ou trancamento. Antes de qualquer proposição a administração da universidade deveria, no mínimo, debater com os estudantes a respeito do papel desses períodos especiais para analisar o que deve ser feito daqui pra frente. Mas nem mesmo havia terminado o Conselho de Entidades de Base (CEB) do dia 22/03, no qual os centros acadêmicos debatiam o assunto, a PROGRAD já havia produzido e começava a divulgar um vídeo sobre a nova minuta, como se tivesse sido debatida por todos, no qual nenhuma das mudanças propostas pelo corpo discente constava.

É nítido que em todos os cursos o ERE foi um remendo curricular, que serviu apenas para que os estudantes cumprissem tabela aligeirando suas formações e não aprendendo nada. Serviu para deixar estudantes e professores exauridos com conteúdos completamente desconectados das necessidades práticas de nosso momento.

A nova resolução, que estabelece a retomada do calendário acadêmico, eleva o nível de precarização da educação ao ponto de permitir, de forma vaga, que os departamentos flexibilizem o projeto pedagógico dos cursos, aglutinem turmas sem estabelecer um número máximo de estudantes e ainda pretende contemplar os 2 semestres curriculares, de forma obrigatória, em apenas 3 meses! Tudo isso é defendido com o argumento de que é necessário retomarmos o calendário para que possamos realizar o vestibular. O vestibular nesse momento é inaceitável. Se na universidade a EaD já foi insuficiente, no ensino médio a EaD foi um verdadeiro crime cometido contra a juventude, e o vestibular, que serve só para validar o ensino aplicado nas escolas, não está de acordo com o interesse da população.

Vale ressaltar que os objetivos do ERE, supostamente, eram manter o vínculo dos estudantes com a universidade e permitir que aqueles alunos próximos da formatura obtivessem condições de se formarem. Entretanto, grande parte dos estudantes simplesmente desistiu das matérias em andamento e a maioria dos formandos não conseguiu concluir a graduação, já que realizar estágios e aulas práticas à distância é algo impensável. Buscar manter o vínculo com os estudantes não implica na necessidade de aderir à EaD nas universidades, isso é uma decisão política conciliatória com os ditames do MEC. Ao invés disso os estudantes deveriam ter como principal meio de manter esse vínculo ativo as atividades práticas, seguindo rigorosas normas de segurança sanitária, em projetos de extensão, em pesquisas de campo e em estágios presenciais para colocar o conhecimento científico a serviço das necessidades do povo frente ao abandono do Estado. A produção de vacinas, insumos hospitalares, EPI’s, a disseminação de conhecimento e práticas de higiene entre o povo, aulas de reforço para as crianças nas favelas, são muitas as formas pelas quais a universidade pode influir neste momento. Isso não apenas aumentaria a qualidade da educação como manteria o vínculo dos estudantes, e também serviria para que as universidades cumprissem seu papel perante a sociedade.

A educação, as universidades e a ciência brasileiras têm sofrido intensos ataques há décadas e especialmente nos últimos anos por meio de constantes cortes de verbas e difamações por parte dos governantes. A crise sanitária que enfrentamos hoje, em partes, é consequência desse processo. Do abandono da ciência e da precarização da saúde. Portanto, fechar as portas das Universidades para o povo é colaborar com o seu sucateamento, é delinear o caminho para seu fechamento e, consequentemente, sua privatização. De nada adianta divulgar projetos de pesquisa na rua XV para a população – como foi feito em 2019, após o contingenciamento de verbas – e durante um momento caótico transformar projetos de extensão em lives no facebook.

Esperar um momento de serenidade para retomar as atividades práticas da UFPR, em meio a maior crise da história de nosso país, é verdadeiro negacionismo. Afinal, parte do ceticismo da população em relação à ciência reside justamente na falta de fé que possuem em uma ciência desconhecida, despretensiosa em relação aos problemas do povo e produzida por cientistas que se limitam a apenas observar a realidade, mas nunca transformá-la.

A nova minuta da UFPR é a imposição da EaD avançando a passos largos sobre a máscara de “bom senso” e “preocupação pela vida”, mas cujo conteúdo é a mesma velha e surrada capitulação frente aos problemas da população e as imposições do MEC. Conclamamos os estudantes a persistirem no boicote a essa educação medíocre e a se lançarem na defesa dos interesses do povo, se unindo aos comitês sanitários que pelo Brasil afora organizam e disseminam a verdadeira defesa da vida, realizada na prática, junto as massas pobres de nosso país.

Frente Estudantil Contra a Educação à Distância

Curitiba, 2 de abril de 2021

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