Na USP e Unicamp, EaD veio para ficar mesmo após fim do isolamento

Repercutido de Universidade à Esquerda

No ano passado, em razão do isolamento social e da pressão pelo retorno às atividades de ensino, as universidades federais e estaduais passaram a realizar suas atividades na modalidade remota. Na época, os setores que alegavam urgência do retorno utilizavam-se do caráter supostamente excepcional do modelo para defendê-lo como saída para a encruzilhada em que se encontravam essas instituições. Cerca de um ano após a generalização desta decisão, algumas universidades já têm anunciado a pertinência do Ensino a Distância (EaD) em parte das atividades mesmo após o fim do isolamento social. 

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, que entrevistou os Pró-reitores de Graduação da Universidade de São Paulo (USP) – Edmund Baracat –  e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – Eliana Amaral -, ambos os dirigentes dessas instituições consideram apropriado que parte das atividades continuem remotas mesmo após o fim da pandemia. 

A Universidade de São Paulo (USP), uma das referências nacionais em pesquisa no país, foi uma das primeiras a optar por essa via. Essa decisão, pela importância nacional desta universidade, aumentou a pressão e convergência nas demais universidades. Para Baracat, a pandemia ensinou aos gestores da universidade que o ensino remoto pode ser útil e que o tempo de aula no campus pode ser restrito apenas às atividades que requeiram maior interação. 

O critério dessa necessidade não é explicitado pelo Pró-Reitor, porém ele questiona a utilidade das aulas presenciais com cerca de 70 estudantes na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Para Baracat, os encontros presenciais deverão ficar resguardados apenas às atividades práticas ou reuniões em pequenos grupos, e que cada centro de ensino deve julgar quais atividades devem permanecer na modalidade presencial. 

Ou seja, segundo ele, os espaços de sociabilidade fundamentais para a construção de conhecimentos, bem como a presença massiva de estudantes para debates em sala de aula serão, a partir de agora, “coisa do passado”. Como resultado, reestruturam-se os currículos e altera-se o caráter pedagógico das atividades para “um novo tempo”. 

A posição da Pró-Reitora da Unicamp é semelhante. Segundo Amaral, “Não faz parte da proposta da Unicamp ter curso de graduação a distância, mas faz parte da boa prática usar recursos digitais complementares”. Tal como Baracat, ela enxerga vantagens no ensino remoto que devem prevalecer em algumas atividades após o fim da pandemia. Mas, para ela, seria necessário resolver o obstáculo do acesso à conexão e equipamentos para estudantes de baixa renda. 

Nesta entrevista, chama a atenção o fato de que nenhum dos Pró-Reitores sequer menciona as questões fundamentais envolvidas na adoção do ensino híbrido permanentemente. Assume-se que, sendo possível, deve-se “liberar” estudantes e professores das atividades presenciais. Assim como no início do ano passado havia uma urgência pelo retorno das atividades de ensino durante a pandemia, agora, a exigência passa a ser a de “poupar” alunos e professores das atividades presenciais, como se esse fosse um aspecto supérfluo na organização universitária.

Em primeiro lugar, é dever dos dirigentes das instituições superiores de ensino falarem de forma transparente acerca do impacto dos cortes orçamentários nas universidades federais  A Lei Orçamentária Anual prevê redução orçamentária de 27% na Educação e de 28% na área de Ciência e Tecnologia. Os cortes, que vêm sistematicamente ocorrendo nas universidades públicas ao menos desde 2016, têm tornado cada vez mais restritas as possibilidades da universidade. O retorno ou não das atividades presenciais depende de uma infraestrutura robusta que é mascarada pelo ensino remoto e, em parte, também pelo híbrido. 

Em segundo, é preciso ter em vista também que o debate sobre quais atividades podem ser feitas de forma remota mascaram o que de fato significa a experiência em uma universidade pública. Os espaços de convivência, com suas possibilidades culturais, acadêmicas, políticas e artísticas também fazem parte da educação universitária. O debate deve ser, portanto, não acerca da adaptação pragmática de parte do ensino permanentemente na forma online, e sim, acerca do que tem se perdido do caráter de universidade com esse modelo. 

Passou-se um ano desde o início da pandemia e é preciso pensar sobre qual a implicação das universidades para transformação radical tanto da forma como os problemas têm se apresentado, quanto das respostas que são possíveis. 

De que maneira cada área do conhecimento pode contribuir no momento da pandemia de forma a tornar as questões menos pragmáticas e mais radicais? Como a produção do conhecimento pode apontar para um outro sentido para as nossas existências? O que a universidade poderia efetivamente estar fazendo agora, que não reduzir essa experiência a um pacto de mediocridade em detrimento da produção robusta de conhecimento? 

São essas as questões que figuras como Edmund Baracat e Eliana Amaral deveriam estar respondendo em entrevista. 

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