117 milhões passam fome – Um retrato do Brasil cindido

Repercutido de A Nova Democracia

Pelo menos 117 milhões de brasileiros encontram dificuldades para se alimentar como deveriam. É o que revelou uma pesquisa feita pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Do total dos 116,8 milhões de brasileiros sem acesso pleno e permanente a alimentos, a pesquisa os dividiu em categorias de “insegurança alimentar”: leve, moderada e grave. O conceito de insegurança alimentar é o termo técnico utilizado em estudos, e é definido pela pesquisa como a “situação de quem não tem acesso pleno e permanente a alimentos”. Somando todas as três categorias, temos o total de 55,2% da população brasileira que não tem condições de se alimentar adequadamente. Os brasileiros que se encontrariam na dita “segurança alimentar” (tendo a garantia de se alimentar de maneira satisfatória) representam 44,8% da população.

Pela primeira vez, ao menos registrada em pesquisa e dados, a fome é a realidade de mais da metade da população brasileira.

As 116,8 milhões de pessoas com alimentação inadequada (unindo as três categorias da pesquisa) representam duas vezes a população da Argentina. As 19,1 milhões de pessoas passando fome (o pior nível indicado pela pesquisa) corresponde, em termos numéricos, à população da Grande São Paulo, que inclui 39 municípios da região metropolitana desse estado. 

1 EM CADA 2 BRASILEIROS NÃO SE ALIMENTAM ADEQUADAMENTE

O chamado “pico epidêmico da fome” lançou 19,1 milhões de brasileiros para o nível mais grave da fome, enfrentando diariamente a incerteza sobre se vai e o que comer. Outros 43,4 milhões não têm alimentos suficientes.

Numa comparação histórica, a fome atingiu 54% a mais de lares do que há dois anos atrás. Em 2018, 36,7% viviam em alguma das três categorias divididas pela pesquisa (insegurança alimentar grave, moderada e leve).

FOME CRESCE 

Entre 2013 e 2018, a fome cresceu a um ritmo médio de 8% ao ano. Do ano de 2018 em diante, porém, o número total de brasileiros em situação de falta de alimentos sofreu um aumento acentuado: aumento de 27,6%. Em dois anos, um relativamente pequeno espaço de tempo, mais de 9 milhões passaram a enfrentar diariamente a incerteza de como e com o que se alimentarão.

POPULAÇÕES DO NORTE E NORDESTE SÃO MAIS ATINGIDAS

Concentrando o maior número de pessoas com insegurança alimentar grave, o mais crítico dos três níveis definidos pela pesquisa, o Nordeste é a região que concentra 7,7 milhões de pessoas atingidas pela fome. Cenário semelhante se vê no Norte: concentrando apenas 7,5% dos habitantes do Brasil, 14,9% do total das pessoas com fome estam ali.

Ali, no Norte e Nordeste, a fome atinge a 60% e 70% das famílias, respectivamente. A pior situação de fome (a insegurança alimentar grave) afeta 18 a cada 100 nortistas e 14 a cada 100 nordestinos.

Portanto, a média nacional de 55,2% não é suficiente no objetivo de traçar o real quadro da fome no país. A estatística, tomada isoladamente, esconde o fato de que no Norte e no Nordeste a situação é mais grave, bem como de que no Sudeste (região que é sede das grandes corporações que instalam-se no país), é onde, proporcionalmente, o número de famintos é menor em comparação com aquelas regiões. 

REGIÕES MAIS AFETADAS PELA FALTA DE ÁGUA

Essas duas regiões são também as mais atingidas pelo fornecimento irregular ou falta completa de água potável. Em média, quatro a cada 10 casas sofreram com a “insegurança hídrica” em 2020. A desigualdade regional se repete: o número é sensivelmente menor se comparado às demais regiões. 

O abastecimento precário de água guarda relação contra a fome. A proporção de domicílios rurais em que a fome se faz presente é duas vezes maior quando não há recursos hídricos para a plantação. Se o item básico para a vida falta para plantar, ele falta, também, para lavar as mãos e realizar a higiene e limpeza adequadas ao cenário da pandemia. A falta de água contribui, portanto, para a contaminação de Covid-19 maior entre os pobres. 

CONDIÇÃO PRECÁRIA DE VIDA NO CAMPO GERA FOME

Uma das razões citadas pela Rede Passnam para explicar a fome nas duas regiões mais afetadas é, nas palavras da própria pesquisa, a “conhecida condição de pobreza das populações rurais”, se referindo aos povos do campo (camponeses, quilombolas, indígenas e ribeirinhos). Segue a pesquisa: “Nessas áreas [rurais], a fome se mostrou uma realidade em 12% dos domicílios”.

A pesquisa mostrou, ainda, as condições de “gênero, cor/raça e grau de escolaridade” que “podem afetar negativamente a situação da segurança alimentar”. Pelo menos 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres estavam sofrendo por fome, em um aumento quando comparado às casas chefiadas por homens (7,5%). Das casas em que moram pretos e pardos, a fome esteve no patamar de 10,7%; já as casas em que moram brancos, o percentual foi de 7,5%. Tal situação se deve à herança da formação das classes no país, diretamente relacionada com a escravização dos povos africanos, lançando um volume maior de seus descendentes para situações mais precárias se comparadas aos brancos.

A escolaridade foi, também, um diferencial encontrado pela pesquisa: em 14,7% dos lares cujo o chefe da família não havia completado o Ensino Fundamental, a fome esteve presente. Com Ensino Médio incompleto, 10,7%. Com Ensino Médio completo, uma grande queda: 4,7%. Tal quadro, evidentemente, não significa que quem menos estuda encontra as piores condições, mas sim, de que as piores condições de sobrevivência limitam as famílias à condição de baixa escolaridade, e determinam uma qualificação profissional inferior e, portanto, a perpetuação da miséria nesses segmentos.

POBREZA E FOME

A instabilidade econômica é a principal causa para o aumento da fome, segundo Ana Maria Segall, médica epidemiologista e pesquisadora da Rede Penssan. A instabilidade econômica, por sua vez, é o termo pelo qual se entende a diminuição de renda em um sentido amplo. 

Podendo ser causada por um aumento inesperado nos gastos necessários para manter uma família (alimentação, custos com saúde, etc.), pela perda de renda de um integrante da família por morte ou invalidez, de um integrante da família que ficou desempregado, dentre outras inúmeras possibilidades. 

COMBINAÇÃO INFERNAL

A própria pesquisa é categórica em negar que a escalada da fome é de responsabilidade do vírus, dando destaque para “políticas de negação e da ausência de medidas efetivas de proteção social”. Tomadas como unidade, a pandemia, elemento que agravou a crise de decomposição do capitalismo burocrático e acirrou a própria crise política, formaram o conjunto dos fatores responsáveis por jogar as massas na miséria. 

De fato, os fatores pela miséria vão além do vírus. A crise econômica que assola os trabalhadores brasileiros derreteu milhões de postos de trabalho. No final de março, somente de desempregados, havia 14,3 milhões. De desalentados (pessoas que já perderam a esperança com o mercado de trabalho) somam-se 6 milhões. Crescimento de 20% e 25% em comparação ao ano anterior, respectivamente. 

SEM QUALQUER ESPERANÇA

Com alguma mistificação, a situação de aumento exponencial da fome no Brasil pode ser tomada somente em sua aparência. É assim que o fato aparece em monopólios de imprensa, focando quase sempre exclusivamente na “volta ao mapa da fome”. Nessa perspectiva, concentram-se todo tipo de falsificação da realidade em que se quer retornar a um passado em que a economia mundial, por particularidades, permitia um superávit através da venda de “commodities” e, logo, a criação de políticas compensatórias com objetivos claros: abafar e falsificar relativamente a miséria (não a suprimindo completamente) por temor de rebeliões. Tais medidas paliativas serviram a dar uma fachada de “garantias de direitos” (que na verdade era somente o direito ao consumo, e mesmo assim, com base no endividamento). Na realidade, porém, o latifúndio se manteve intacto e acumulando recursos econômicos, privando milhões de famílias do fundamental direito à terra, negação que é a base mesma da decomposição (crise) do regime econômico explorador. 

Tanto é que a situação seria diferente caso a questão da distribuição da terra tivesse sido resolvida. Atendidas a reivindicação secular de milhões de camponeses e retirantes que migraram para os centros urbanos a produção de alimentos não seria engolida pela força que tem o latifúndio exportador e sua produção de grãos. Pelo contrário, essa produção seria impulsionada, concedendo-lhes crédito subsidiado e todas as condições logísticas para escoar a produção a baixo custo. 

Tal situação de aumento da fome e da miséria (que andam invariavelmente juntas) se explica, ainda, pela persistência do capitalismo burocrático em nosso país. Relativamente desindustrializado, o país não conta com qualquer iniciativa que garanta o emprego para todos. 

Eternamente reféns de uma base de sustentação arcaica: tal é o destino que buscam impor-nos. O dito motor da riqueza nacional (o “agronegócio”) nos garante, segundo os dados oficiais do PIB, algo de positivo. Porém, é preciso que se diga: isso é farsa, pois se apoia num enorme amontoado de famílias famélicas, no campo e na cidade, alimentando-se da produção camponesa arruinada e explorada. 

O lucro dos senhores de terra, aos quais entram como “riqueza de todo o país”, significa o aumento no preço do arroz, do feijão, da carne – representam, em uma palavra, a fome para a ampla maioria do povo. Conservado intacto o latifúndio, jamais o país e a Nação poderão vislumbrar a realidade da extinção completa da fome (particularmente da categoria mais grave indicada pela pesquisa).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s