Jovem segue preso após confronto entre manifestantes e seguranças do Metrô durante ato contra Bolsonaro em SP

Repercutido de Ponte Jornalismo.

Tatuador é acusado de agressão a segurança da linha amarela do Metrô e furto de um capacete. Outros três manifestantes foram detidos durante o protesto, mas vão responder a acusações em liberdade. Fotógrafos relataram terem sido agredidos e terem equipamentos quebrados por seguranças da concessionária ViaQuatro

A manifestação deste sábado (3/7) contra o presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido) na Avenida Paulista, centro da capital de São Paulo, terminou com quatro jovens detidos e fotógrafos feridos, com equipamentos danificados por seguranças da concessionária ViaQuatro Metrô de São Paulo. 

Por volta das 20h da noite na altura da estação Higienópolis / Mackenzie do Metrô, já na Rua da Consolação, manifestantes tentaram quebrar vidraças da fachada da estação. Cerca de seis seguranças da concessionária se protegeram com escudos e passaram a recuar para trás tentando proteger a estação, enquanto manifestantes jogavam garrafas, pedras e papelões em cima dos seguranças. Pouco tempo depois os próprios seguranças passaram a revidar, jogando os mesmos objetos sobre profissionais de imprensa. Após a aproximação da polícia, a maioria dos manifestantes se dispersaram, junto aos fotógrafos e cinegrafistas.

Durante a caminhada em direção à Praça Roosevelt, no centro da cidade, manifestantes atacaram uma agência do Banco Santander e uma concessionária de carros da Hyundai. Ainda assim, a Polícia Militar comandada por João Doria (PSDB) apenas protegeu o patrimônio, sem atacar o resto da manifestação. No entanto, quatro pessoas foram detidas, segundo o advogado da Comissão de Direitos Humanos da OAB Arnobio Rocha. “Inicialmente dois jovens foram levados direto ao 78º DP (Jardins), mas foram liberados”, explica. 

Arnóbio conta que no 2º DP (Bom Retiro) Matheus Machado Xavier, 25 anos, ficou detido em flagrante, além de Lucas Augusto Xavier, 19 anos, que supostamente foi agredido. “Ele recebeu uma pancada bastante forte ali na Avenida Paulista, nós fizemos um atendimento pela Comissão de Direitos Humanos, depois chegou a polícia dizendo que ele tinha caído, mas ele estava bastante machucado. Ele foi levado pelo Corpo de Bombeiros ao Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya. Bem mais tarde, ele foi dar depoimento lá no 78º DP e depois foi liberado”.

Conforme apurado pela reportagem, que esteve no  2º DP no final da noite deste sábado (3/7), Matheus, que é tatuador, foi encaminhado para a delegacia por volta das 21h após ser indiciado por furtar um capacete de um dos seguranças do Metrô que encontrou no chão, além de supostamente agredir um deles com um objeto de madeira.

Segundo relato de uma testemunha que preferiu não se identificar por conta de ameaças policiais, Matheus não participou de nenhuma agressão contra os seguranças e foi perseguido por um policial à paisana. “Não tinha como identificar ninguém, todos estavam com o rosto coberto, mas já na saída do ato vi ele correndo dos policiais, ele cruzou o cruzamento da Rua Amaral Gurgel com a Rua Major Sertório, pegaram ele e falaram que pegar ele era uma questão de honra, como se ele fosse um troféu. Foi um policial infiltrado que pegou ele, pois um PM à paisana já estava o esperando do outro lado da rua, ele estava todo de preto, como se fosse um militante mesmo, isso é inadmissível, ele já estava sendo seguido. O ocorrido só reforça ainda mais que existem infiltrados nos atos, e devem ser localizados e devidamente combatidos. Sobre a questão do capacete, ele o encontrou jogado no chão, não existe chance alguma do Matheus ter pego da cabeça do segurança.”

Conforme narrado no boletim de ocorrência, lavrado pela delegada Pamela dos Santos Cristan, Felipe Gonçalves da Silva, agente de segurança da ViaQuatro Linha Amarela afirma que, em torno das 20h, teve a notícia de que manifestantes estariam depredando a estação de metrô onde trabalhava naquele momento. Nesse instante, juntamente com os demais membros da equipe de segurança, foi ao acesso externo para proteger as instalações e passageiros, quando avistou cerca de “80 a 100 manifestantes do movimento Black Bloc” que, segundo Felipe, começaram a “agredir os seguranças, chutando os escudos e lhes lançando toda a sorte de objetos”. 

A versão de Felipe é corroborada por Douglas Souza Cerqueira, também agente de segurança da estação de metrô e que esteve presente no momento. Felipe ainda diz que Matheus pegou um objeto de madeira (aparentemente um caibro) e o golpeou fortemente em sua cabeça, o fazendo cair no chão, e que Matheus teria pego seu capacete e fugido. A partir daí, segundo o BO, Matheus tentou fugir, mas logo foi alcançado pelo soldado da PM Flávio Luiz dos Santos de Almeida, momento em que foi encaminhado para a delegacia onde foi reconhecido por Felipe, que também afirmou que Matheus foi o autor da lesão em sua cabeça.  

Matheus diz em seu depoimento que não agrediu o segurança e afirma que, quando os seguranças já recuavam para o interior da estação, viu o capacete no chão e o pegou, pois teria a intenção de levar o objeto para casa. Dali saiu e foi abordado pela PM, que encontrou o objeto. Matheus também afirmou que o segurança que disse ter sido agredido por ele combinou na delegacia as versões com os policiais militares, especificamente para mantê-lo preso.

A delegada afirma que “não foi possível estabelecer e individualizar a conduta do indiciado [Matheus] em relação à depredação e vandalismo ali ocorridos” e decretou a prisão em flagrante pelos crimes de lesão corporal dolosa e furto. A delegada solicitou ainda os vídeos contendo as imagens das ações de “vandalismo e depredação” no Metrô.  

Neste domingo (4/7) Matheus teve seu pedido de liberdade provisória negado e o juiz de plantão Luis Fernando Decoussau Machado converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva. O jovem será transferido para o CDP de Belém II, no centro de São Paulo. “Agora será feito o habeas corpus, mas só deve ser apreciado amanhã”, diz a Defensoria Pública de São Paulo. 

Em sua decisão o juiz relatou que uma eventual soltura de Matheus, ainda em fase inicial de investigação “de delitos graves, traria descrédito à justiça, temor e perplexidade à ordeira sociedade paulistana e, consequentemente, risco à ordem pública que sabidamente, deve ser garantida”. Uma manifestação em apoio a Matheus está sendo organizada para a manhã desta segunda-feira (5/7).

Matheus já esteve envolvido em outra situação com policiais durante um protesto em 2016, quando o mesmo participava dos atos contra o aumento das tarifas de ônibus, no Movimento Passe Livre. Naquela época, conforme apurado pelo site Jornalistas Livres, “um PM colocou na mochila de Matheus um material suspeito, tido como explosivo, que havia sido encontrado junto a um poste”.

Manifestante agredido

Segundo relato da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que prestou solidariedade aos presos oferecendo apoio jurídico na madrugada deste sábado, Lucas Augusto Xavier, 19 anos, também ficou detido no 78º DP. O rapaz teve ferimentos e foi encaminhado ao Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, na zona norte de São Paulo. 

Segundo o BO, assinado pelo delegado Fábio Hayayuki Matsuo, Lucas foi encontrado junto a outros manifestantes incendiando uma agência bancária do Santander, e quando policiais militares foram abordar os manifestantes encontraram Lucas “caído em uma via”. Conforme o documento, ao lado do manifestante foram encontradas duas garrafas vazias quebradas e um martelo. No BO, o depoimento de Lucas diz que ele não foi agredido física ou psicologicamente por nenhum policial. Matsuo decretou a prisão em flagrante de Lucas, que posteriormente foi solto.

A mãe do manifestante, Vanda Xavier afirmou em entrevista à Ponte que uma moça encontrou Lucas desacordado no chão próximo de vários policiais. “Depois ele foi levado ao Pronto Socorro, lá ele foi medicado, a moça ficou me aguardando e disse que os policiais estavam muito hostis e queriam levar ele embora a todo custo, mesmo o médico não liberando, quando acabou o soro as enfermeiras de plantão liberaram ele para a polícia. Nesse tempo eu estava a caminho e não consegui nem chegar no hospital, acabei me dirigindo para a delegacia, consegui falar com o Lucas lá, ele estava sonolento pela medicação e muito machucado”.

Em entrevista à Ponte, Lucas contou que foi agredido por um policial, que o derrubou no chão após um confronto com policiais e manifestantes que jogaram pedras nos PMs. “Eu estava na Consolação e iríamos fazer uma barricada, os policiais começaram a se aproximar e as pessoas foram pra cima deles, jogaram pedras. Um policial veio correndo na minha direção, eu saí correndo também, ele tinha duas vezes o meu tamanho. Consegui atravessar para o outro lado da rua, mas ele me jogou no chão e bateu a minha cabeça com tudo, fiquei inconsciente e tonto”.

O jovem conta que foi arrastado pelo PM até o banco Santander, onde manifestantes incendiavam e depredavam o local. “Ele me arrastou pela roupa, talvez tivesse outro policial com ele, o meu pé estava raspando no chão, perdi um sapato, perdi a meia, rasgou a minha calça. Enquanto isso ele me xingava, falando que eu era moleque, me jogaram no chão com a roupa toda levantada, ficaram lá mandando eu levantar, eu não conseguia nem falar, minha máscara tinha amassado, eles perguntavam meu nome, perguntavam um monte de coisas, mas eu não conseguia responder”.

Segundo Lucas, o PM que o arrastou falou que o jovem estava fingindo o desmaio. “E eu nem sabia onde eu estava, depois fiquei sabendo que uma senhora me acompanhou até o hospital, porque eu não estava acordando, eu vi eles abrindo minha bolsa, colocando garrafas em uma sacola perto de mim. Eu tenho certeza que me arrastaram na frente do Santander, falaram que eu ateei fogo no banco, mas não ateei fogo em nada. Até as pessoas do bloco falavam: ‘solta o menino, solta o menino’”.

Lucas e a moça que o acompanhou tentaram permanecer no hospital, com medo dos policiais. “Fiquei algumas horas no hospital, estávamos tentando esperar o máximo possível, porque não dá para esperar nada da polícia. A moça queria esperar a minha mãe chegar, mas eles saíram correndo antes, me levaram no DP, me colocaram numa cela, não teve BO, não me perguntaram nada, não falei diretamente com nenhum advogado. Saí da cadeia depois de muita gente me ajudar e procurar advogado. Eu não taquei fogo em nada. Me colocaram numa cela feminina, falaram que iam me colocar em uma masculina, mas não tinha vaga”, relatou o jovem, que é transexual.

Na defesa de Lucas, o defensor público Renato Campos Pinto De Vitto aponta que não há motivos para que o jovem permanecesse preso. “Note-se que ele foi preso desacordado com uma pancada na cabeça, sendo que o só fato de estar numa manifestação ou ao seu lado terem sido encontrados artefatos (garrafas vazias e um martelo) nada conspiram para que ele, de qualquer modo tenha executado ou participado dos atos materiais dos crimes de dano e incêndio”.

Por outro lado, o Banco Santander se manifestou nos autos solicitando a prisão preventiva de Lucas, alegando que a “gravíssima ação criminosa perpetrada pelo réu causou ao peticionante prejuízos de grande monta, e não só, o incêndio propositadamente causado pôs em risco toda a sociedade”. Já o Promotor de Justiça Paulo D ́Amico Junior disse que não há prova “concreta de que [Lucas] danificara e incendiara a agência bancária”. Nesse sentido, o promotor se manifestou pela concessão da liberdade provisória sem fiança de Lucas. 

Neste domingo (4/7) a juíza Julia Martinez Alonso de Almeida Alvim, do Tribunal de Justiça de São Paulo, concedeu a liberdade provisória de Lucas. “O autuado é primário, de bons antecedentes e o crime, em tese, praticado não foi cometido mediante violência ou grave ameaça contra a pessoa”, disse na decisão.

Fotógrafos feridos

Durante a cobertura do ato, alguns fotógrafos foram feridos por agentes de segurança do Metrô. Em uma postagem no Instagram, o fotógrafo Jardiel Carvalho conta que, durante o confronto, foi atingido na mão por uma pedra jogada por um dos seguranças. Ainda segundo ele, os fotógrafos Amauri Nehn e Karina Iliescu (que já colaborou com a Ponte) tiveram seu equipamento quebrado pelos seguranças.

Em entrevista à Ponte, Jardiel alega que estava com todos os outros profissionais de imagem fazendo fotos do confronto entre manifestantes e guardas da linha amarela na frente da estação Higinópolis / Mackenzie, em um dos lados da Consolação, por volta das 20h20, quando foi surpreendido pelos próprios funcionário do Metrô. “Depois de alguns minutos eles atravessaram pro outro lado da rua se protegendo das coisas que estavam sendo jogadas neles no canteiro central. Eu me afastei um pouco por que estava muito perigoso e continuei fotografando. Eu estava de frente para os guardas, foi quando vi pelo visor da câmera um dos guardas jogar a pedra que me acertou”.

A pedra, segundo ele, foi em direção ao seu rosto. “Mas eu estava com máscara face shield e a pedra bateu nela e acertou meus dedos. Eu estava com a câmera no rosto fotografando. Não achei que o guarda ia jogar a pedra em mim. Depois eu saí da confusão e não fotografei mais. Se eu não estivesse com o equipamento de segurança poderia ter sido muito grave, já é grave, mas poderia ser mais”. 

O fotojornalista Amauri Nehn teve sua câmera danificada por um dos seguranças do Metrô, que deu uma pancada em sua câmera com um cassetete também durante o momento de confronto entre os manifestantes e os seguranças da linha amarela, na Consolação. “Um dos seguranças do metrô mirou na minha lente com cassetete e deu uma pancada bem forte, senti um impacto e a lente da câmera se partiu e caiu no chão. Como eu estava com a alça da câmera no pescoço ela não chegou a cair, mas quebrou a baioneta da minha câmera e a baioneta da lente, a parte e vidro da frente da lente da câmera danificou, dando um prejuízo enorme”. 

Karina Iliescu, perdeu o equipamento na cobertura do ato também. “Ele bateu no meu capacete, mas quebrou todo o meu equipamento. Os manifestantes jogavam uma coisa, eles tentavam jogar de volta. Mas aí, eu acho que eles queriam bater em alguém, a imprensa estava mais perto e eles começaram a bater na imprensa”, diz.

Outro lado 

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que um homem, de 25 anos, foi preso em flagrante e indiciado pelo 2° DP, “após agredir um agente de segurança do Metrô com um objeto de madeira e causar danos na estação Higienópolis/Manckenzie”, que seria Matheus. 

“Outros três suspeitos foram levados ao 78° DP. Um rapaz [que seria Lucas], de 19 anos, foi preso em flagrante após apedrejar e incendiar uma agência bancária na Rua da Consolação. Com ele, foram apreendidos um martelo e duas garrafas quebradas. Ele foi encaminhado ao PS Saboya e depois à unidade policial, onde foi autuado pelos crimes dos artigos 250 e 163 do Código Penal. Outros dois indivíduos, de 26 e 29 anos, foram conduzidos à delegacia e são investigados por danificar o prédio de uma universidade”, conclui o texto.

Procurada pela reportagem, a concessionária ViaQuatro Metrô de São Paulo disse que os Agentes de Atendimento e Segurança da Estação Higienópolis-Mackenzie atuaram para garantir a todos o direito de ir e vir durante as manifestações ocorridas na avenida Paulista, “cumprindo sua missão de transportar as pessoas com segurança”. A nota ainda diz que na tentativa de conter um grupo de manifestantes que estava “depredando a estação e agredindo alguns seguranças , oito colaboradores sofreram escoriações e cinco deles foram encaminhados a hospitais da região central de São Paulo. Todos passam bem e já foram liberados. A ViaQuatro informa também que segue em busca de mais detalhes sobre o ocorrido com objetivo de aperfeiçoar suas ações/treinamentos em eventos semelhantes  para sempre prover a segurança de  seus colaboradores e clientes, contribuindo cada vez mais com a sociedade”. A concessionária não se manifestou a respeito das agressões denunciadas pelos fotógrafos.

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